sábado, 22 de novembro de 2014

PARADIGMA DA ESPERANÇA






A ESPERANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE

Acreditar que as coisas podem ser diferentes é fundamental para a manutenção da própria existência.

As coisas só acabam quando não há mais esperança,por isso dizemos que ela é a última que morre.
Ter esperança é uma qualidade essencial so ser humano.
A esperança é um mal?

Os gregos da Antiguidade, que têm respostas para tudo a partir de sua mitologia, dizem que quem criou a humanidade foi o titã Prometeu.
Além disso, ele fez mais duas coisas: roubou o fogo do Olimpo para ser usado pelos homens e prendeu em uma caixa todos os males, como a doença, a loucura, a guerra e a  morte. E entre todos esses males, encolhida em um canto, estava a esperança.
Zeus, bravo com o roubo do fogo, prendeu Prometeu e o condenou a um castigo perpétuo: acorrentou-o a uma rocha, para que seu fígado fosse comido por um abutre feroz durante o dia e se recuperasse durante a noite.
Assim Prometeu pagaria durante toda a eternidade pela insolência de tentar comparar-se a um deus. E Zeus fez mais: criou uma belíssima mulher, a quem chamou de Pandora, e a mandou a Terra, onde acabou por casar-se com Epimeteu, irmão de Prometeu.
Quando encontrou a caixa que aprisionava os males, Pandora a abriu, liberando-os todos, que passaram a afligir a humanidade. A partir de então,os humanos começaram a sofrer com sua condição de fracos, incompletos e mortais, que só conseguem continuar vivendo e povoando a terra porque da caixa também saiu a esperança, que passou a habitar entre eles.
Na Grécia,  podemos encontrar a estátua dedicada à deusa Elpis – “ esperança”, na língua de Homero. Seu mito é um dos mais repetidos até os dias de hoje, e também é um dos que suscitam dúvida. Afinal, se a esperança é uma coisa tão boa, o que estaria ela fazendo junto com os males humanos, dentro da mesma caixa?
A versão mais aceita para essa questão diz que os criadores dos mitos acreditavam que a esperança era filha da mentira e , por isso , considerada má.
Segundo eles, a verdade jamais pode ser ignorada, por mais cruel que seja, e a esperança muitas vezes desvia a atenção dos homens, afastando-os da realidade,deixando-os ainda mais fracos.
                               
                                      A esperança é boa?
Essa é a questão mais dolorosamente aguda a respeito da esperança.
Até quando devemos nutrir uma esperança sem que ela nos paralise e nos impeça de tomarmos outro caminho?
Será que a esperança só é boa quando é baseada em probabilidades concretas?
Ou ela é boa em si mesma, por manter a vida ao assumir a forma de uma tocha que nos permite encontrar algum caminho antes de se apagar? Há defensores para ambas as alternativas.
A doutrina cristã , por exemplo,relaciona a esperança à fé e à caridade,para criar as três principais virtudes teologais, ou seja, aquelas que, por terem origem divina, não carecem de entendimento lógico. De acordo com essa idéia, temos fé, acalentamos esperança e praticamos caridade pelos atos em si mesmos. Se tentarmos entender a nossa fé e justificar nossa caridade, estaremos tentando racionalizar o que não precisa de razão para existir. E o mesmo aconteceria com a esperança .
Dessa forma , a esperança é parte do ser humano, como são os seus cinco sentidos, e só percebemos que a possuímos quando, por algum motivo a perdemos. Temos esperança de a vida melhorar, de arrumar um emprego,de a doença sarar, e nos apegamos a ela para tolerar a dureza do cotidiano, a falta de emprego, a saúde abalada. A esperança é o unguento que , se não cura a inflamação,pelo menos diminui a dor.
Mas é claro que há outros pontos de vista.
Nietzsche é um dos que pensam diferente. Em seu livro HUMANO,DEMASIADO HUMANO, ele afirma que a esperança é o pior dos males ,pois ela se refere à expectativa de um futuro incerto, e por isso é enganosa.
O filósofo interpreta que foi Zeus que ordenou que ela permanecesse entre os seres humanos apenas para prolongar seu tormento. “Atinge-se a verdade”- disse o cáustico filósofo alemão - , “através da descrença e do ceticismo, e não do desejo infantil de que algo aconteça de certa forma”.
Acontece que a esperança é uma qualidade demasiadamente humana, e imensamente necessária à própria manutenção da existência.
Entretanto, cumpre melhor seu papel ao se ancorar na realidade. Quando a esperança de sarar de uma doença  é prescrita com a caneta da medicina, reforça nosso ânimo sobre a própria esperança. Mas , quando quem a propõe é o misticismo ou a superstição, pode morrer a esperança – e o paciente.

                                                  Ela é indispensável?

Nunca foi fácil viver. A visão romântica que temos das décadas ou dos séculos passados não passa de licença poética dos romancistas e dos cineastas, acobertando a vida dura de nossos antepassados. As benesses científicas e as conquistas sociais são frutos  colhidos do alto da árvore da história, nos ramos do século 20.
Antes, as doenças e as injustiças matavam com intensidade e com precocidade.
No início do século passado, a esperança – e é assim mesmo que se diz – de vida de um recém-nascido no Brasil era de apenas 40 anos, e hoje é de cerca de 75 anos.
Entretanto, viver parece ser uma aventura cada vez mais perigosa, mas isso se deve ao fato de que a caixa de Pandora moderna tem controle remoto, e despeja sobre nosso sofá tudo o que “dá notícia”.
Tsunâmis inesperados,furacões esperados mas subestimados, terroristas armados de bombas e de loucura; políticos corruptos livrando suas caras através de manobras e conchavos. A própria esperança se surpreende e se assusta quando é usada como cabo eleitoral,sendo nomeada para vencer o medo.
Apesar de tudo isso, a esperança não é dispensável.
Ter esperança é acreditar no amanhã. É supor que a vida vai melhorar, que o dinheiro vai dar , que a febre vai diminuir, que a lavoura vai crescer, que o sorriso vai perdurar, E tudo isso porque nós vamos fazer nossa parte. Ter esperança é assumir nosso lado divino e nos responsabilizarmos pela continuação da obra de criação, pondo o cérebro para pensar , o braço para trabalhar e o coração para amar o que se quer ,o que se faz e o que se sonha.
A pessoa que perde a esperança perde-se a si mesma , porque esperança pertence à sua essência. O viver tem a esperança do ser. O sonho tem a esperança da realização. O trabalho  tem a esperança  do resultado e do pagamento. O olhar furtivo tem a esperança do sorriso malicioso. A piada tem a esperança do riso. A música tem a esperança da emoção.
A verdadeira esperança é aquela que acalanta sem enganar, que motiva sem iludir, que apóia com bases sólidas , construídas  pela responsabilidade. Essa é a esperança que não morre. E , se morrer, será a última ,pois depois dela não há mais nada.

E.M. (texto adaptado).

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