A ESPERANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE
Acreditar
que as coisas podem ser diferentes é fundamental para a manutenção da própria
existência.
As coisas só acabam quando não há mais esperança,por
isso dizemos que ela é a última que morre.
Ter esperança é uma qualidade essencial so ser humano.
A
esperança é um mal?
Os gregos da Antiguidade,
que têm respostas para tudo a partir de sua mitologia, dizem que quem criou a
humanidade foi o titã Prometeu.
Além disso, ele fez mais
duas coisas: roubou o fogo do Olimpo para ser usado pelos homens e prendeu em
uma caixa todos os males, como a doença, a loucura, a guerra e a morte. E entre todos esses males, encolhida
em um canto, estava a esperança.
Zeus, bravo com o roubo do
fogo, prendeu Prometeu e o condenou a um castigo perpétuo: acorrentou-o a uma
rocha, para que seu fígado fosse comido por um abutre feroz durante o dia e se
recuperasse durante a noite.
Assim Prometeu pagaria
durante toda a eternidade pela insolência de tentar comparar-se a um deus. E
Zeus fez mais: criou uma belíssima mulher, a quem chamou de Pandora, e a mandou
a Terra, onde acabou por casar-se com Epimeteu, irmão de Prometeu.
Quando encontrou a caixa
que aprisionava os males, Pandora a abriu, liberando-os todos, que passaram a afligir
a humanidade. A partir de então,os humanos começaram a sofrer com sua condição
de fracos, incompletos e mortais, que só conseguem continuar vivendo e povoando
a terra porque da caixa também saiu a esperança, que passou a habitar entre
eles.
Na Grécia, podemos encontrar a estátua dedicada à deusa
Elpis – “ esperança”, na língua de Homero. Seu mito é um dos mais repetidos até
os dias de hoje, e também é um dos que suscitam dúvida. Afinal, se a esperança
é uma coisa tão boa, o que estaria ela fazendo junto com os males humanos,
dentro da mesma caixa?
A versão mais aceita para
essa questão diz que os criadores dos mitos acreditavam que a esperança era
filha da mentira e , por isso , considerada má.
Segundo eles, a verdade
jamais pode ser ignorada, por mais cruel que seja, e a esperança muitas vezes
desvia a atenção dos homens, afastando-os da realidade,deixando-os ainda mais
fracos.
A
esperança é boa?
Essa é a questão mais
dolorosamente aguda a respeito da esperança.
Até quando devemos nutrir
uma esperança sem que ela nos paralise e nos impeça de tomarmos outro caminho?
Será que a esperança só é
boa quando é baseada em probabilidades concretas?
Ou ela é boa em si mesma,
por manter a vida ao assumir a forma de uma tocha que nos permite encontrar
algum caminho antes de se apagar? Há defensores para ambas as alternativas.
A doutrina cristã , por
exemplo,relaciona a esperança à fé e à caridade,para criar as três principais
virtudes teologais, ou seja, aquelas que, por terem origem divina, não carecem
de entendimento lógico. De acordo com essa idéia, temos fé, acalentamos
esperança e praticamos caridade pelos atos em si mesmos. Se tentarmos entender
a nossa fé e justificar nossa caridade, estaremos tentando racionalizar o que
não precisa de razão para existir. E o mesmo aconteceria com a esperança .
Dessa forma , a esperança
é parte do ser humano, como são os seus cinco sentidos, e só percebemos que a
possuímos quando, por algum motivo a perdemos. Temos esperança de a vida
melhorar, de arrumar um emprego,de a doença sarar, e nos apegamos a ela para
tolerar a dureza do cotidiano, a falta de emprego, a saúde abalada. A esperança
é o unguento que , se não cura a inflamação,pelo menos diminui a dor.
Mas é claro que há outros
pontos de vista.
Nietzsche é um dos que
pensam diferente. Em seu livro HUMANO,DEMASIADO HUMANO, ele afirma que a
esperança é o pior dos males ,pois ela se refere à expectativa de um futuro
incerto, e por isso é enganosa.
O filósofo interpreta que
foi Zeus que ordenou que ela permanecesse entre os seres humanos apenas para
prolongar seu tormento. “Atinge-se a verdade”- disse o cáustico filósofo alemão
- , “através da descrença e do ceticismo, e não do desejo infantil de que algo
aconteça de certa forma”.
Acontece que a esperança é
uma qualidade demasiadamente humana, e imensamente necessária à própria
manutenção da existência.
Entretanto, cumpre melhor
seu papel ao se ancorar na realidade. Quando a esperança de sarar de uma doença é prescrita com a caneta da medicina, reforça
nosso ânimo sobre a própria esperança. Mas , quando quem a propõe é o
misticismo ou a superstição, pode morrer a esperança – e o paciente.
Ela é indispensável?
Nunca foi fácil viver. A
visão romântica que temos das décadas ou dos séculos passados não passa de
licença poética dos romancistas e dos cineastas, acobertando a vida dura de
nossos antepassados. As benesses científicas e as conquistas sociais são
frutos colhidos do alto da árvore da
história, nos ramos do século 20.
Antes, as doenças e as
injustiças matavam com intensidade e com precocidade.
No início do século
passado, a esperança – e é assim mesmo que se diz – de vida de um recém-nascido
no Brasil era de apenas 40 anos, e hoje é de cerca de 75 anos.
Entretanto, viver parece
ser uma aventura cada vez mais perigosa, mas isso se deve ao fato de que a
caixa de Pandora moderna tem controle remoto, e despeja sobre nosso sofá tudo o
que “dá notícia”.
Tsunâmis
inesperados,furacões esperados mas subestimados, terroristas armados de bombas
e de loucura; políticos corruptos livrando suas caras através de manobras e
conchavos. A própria esperança se surpreende e se assusta quando é usada como
cabo eleitoral,sendo nomeada para vencer o medo.
Apesar de tudo isso, a
esperança não é dispensável.
Ter esperança é acreditar
no amanhã. É supor que a vida vai melhorar, que o dinheiro vai dar , que a
febre vai diminuir, que a lavoura vai crescer, que o sorriso vai perdurar, E
tudo isso porque nós vamos fazer nossa parte. Ter esperança é assumir nosso
lado divino e nos responsabilizarmos pela continuação da obra de criação, pondo
o cérebro para pensar , o braço para trabalhar e o coração para amar o que se
quer ,o que se faz e o que se sonha.
A pessoa que perde a
esperança perde-se a si mesma , porque esperança pertence à sua essência. O
viver tem a esperança do ser. O sonho tem a esperança da realização. O
trabalho tem a esperança do resultado e do pagamento. O olhar furtivo
tem a esperança do sorriso malicioso. A piada tem a esperança do riso. A música
tem a esperança da emoção.
A verdadeira esperança é
aquela que acalanta sem enganar, que motiva sem iludir, que apóia com bases
sólidas , construídas pela responsabilidade.
Essa é a esperança que não morre. E , se morrer, será a última ,pois depois
dela não há mais nada.
E.M. (texto adaptado).

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